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Sistemas de Agricultura

Domingos P. Ferreira de Almeida

 

No estudo da agricultura, tal como de qualquer outro assunto, diversos tipos de abordagem são praticados. Tradicionalmente adopta-se uma postura analítica, baseada no isolamento de temas cujo âmbito vai sendo progressivamente restringido e em relação aos quais se aplicam raciocínios do tipo dedutivo. Complementarmente a esta metodologia existe uma abordagem sistémica, baseada na integração de diversas disciplinas, que, por ser transdisciplinar "permite agrupar e organizar os conhecimentos com vista a uma maior eficácia da acção".

A abordagem sistémica baseia-se na noção de sistema e, contrariamente à analítica, engloba não só todos os elementos do sistema em estudo, mas também as suas inter-relações e interdependências.

 

Noção de sistema

Um sistema é um conjunto de componentes que interactuam entre si e que estão organizados para determinado objectivo. Encontra-se delimitado do ambiente circundante - o contexto - por uma fronteira, pelo que se pode considerar como uma entidade autónoma.

Esta definição geral pode aplicar-se a entidades com diferentes níveis de organização, desde os organitos celulares até aos ecossistemas, desde o organismo humano à mais complexa das sociedades. Independentemente do nível de organização considerado, há uma enorme complexidade em cada um desses sistemas. Um cloroplasto, por exemplo, é um sistema cujos componentes são a miríada de substâncias químicas que interactuam em reacções e estão organizados com o objectivo de se perpetuarem e manterem a célula. Ao nível do ecossistema consideramos componentes de maior grau de organização, i. e. organismos vivos e componentes abióticos e sua inter-relações. No entanto dentro do ecossistema podemos delimitar outros sistemas de nível inferior de organização.

Uma característica importante dos sistemas é o estabelecimento de trocas de matéria e energia com o exterior. Os sistemas em que estamos interessados são sistemas abertos, que se relacionam permanentemente com o ambiente circundante através de trocas de matéria e de energia.

A intervenção em sistemas complexos deve ter em conta não só os seus componentes, mas as interacções entre eles e as trocas de matéria e energia com o contexto.

 

Sistema de cultura: o nível "parcela"

O sistema de cultura é constituído por uma cultura e pelas práticas culturais. As fronteiras deste sistema coincidem com os limites da parcela cultivada. Na realidade as decisões sobre as técnicas culturais a adoptar para cada cultura dependem das características de cada parcela ou folha dentro da exploração agrícola, nomeadamente do tipo de solo e da topografia. É a este nível que se estudam os processos produtivos da cultura e as suas relações com o meio ambiente. É ainda ao nível da parcela que estuda o efeito da história da utilização agrícola (traduz-se nos efeitos a longo prazo da rotação de culturas, das técnicas de mobilização do solo, da fertilização, da remoção do material colhido) no estado do solo e na produtividade da cultura. As contas de cultura e respectivas necessidades de trabalho são também analisadas ao nível da parcela.

O sistema de cultura é, por excelência, o objecto de estudo da Agronomia.

Sistema de produção: o nível "exploração agrícola"

As parcelas, por sua vez estão inseridas num nível de organização superior. São componentes de uma exploração agrícola, organizada em função de determinado objectivo e sob a gestão de um agricultor particular. Podemos assim estabelecer o sistema de produção, cujas fronteiras coincidem com as da exploração agrícola e engloba as principais culturas e técnicas culturais adoptadas numa exploração. É importante ter em conta que a exploração agrícola é um sistema orientado para um objectivo concreto que determina a quantidade e a combinação de diferentes factores de produção que são aplicados. É ao nível da exploração agrícola que se estuda a integração da pecuária com a agricultura e o relacionamento dos agricultores com o mercado, tanto de produtos como de factores de produção.

Dificilmente se podem encontrar duas explorações agrícolas exactamente iguais. Normalmente diferem no tipo de solo, nas culturas praticadas, na área disponível e na capacidade técnica dos agricultores. No entanto, quando numa região as explorações agrícolas se organizam de um modo semelhante, podemos considerar um sistema de agricultura.

Sistema de agricultura: o nível "região"

Por sistema de agricultura entende-se a organização regional dos sistemas de produção. Neste nível de organização efectuam-se estudos de economia e sociologia, interacções entre a actividade agrícola e outras actividades económicas, e aspectos relacionados com a drenagem e a poluição do ar e da água.

 

A energia nos sistemas de agricultura

Os sistemas de produção são sistemas abertos, que trocam matéria - água, nutrientes, partículas de solo, factores e produções - e energia com o ambiente circundante.

A energia solar é a principal fonte de energia para todos os sistemas terrestres.

As plantas utilizam a radiação com comprimento de onda compreendido entre 400 e 700 nm fixando a sua energia em ligações de carbono através da fotossíntese. Esta transformação da energia radiante em energia química potencial é a fonte de toda a energia que circula nos ecossistemas.

Para além da energia radiante muitos sistemas de produção utilizam outros factores, que representam importantes entradas de energia no sistema, não só da energia necessária à produção desse factor, mas também a energia gasta na sua aplicação. No quadro 1 figuram os equivalentes energéticos de alguns factores de produção e operações agrícolas.

 

  • Quadro 1- Equivalentes energéticos de alguns factores de produção e
    operações culturais (Briggs e Courtney, 1989)

Item

Unidade

Exigência energética (MJ)

Potássio

kg de K

9,60

Azoto (média)

kg de N

67,00

Fitofármacos (média)

kg

110,00

Lavoura

hectare

836,00

Gradagem discos

hectare

325,00

Pulverização

hectare

45,00

A produtividade é talvez o atributo mais importante dos sistemas de produção. Uma vez que se define como a exportação obtida por unidade de área, a produtividade é multidimensional, englobando diversas entradas no sistema. Como a radiação, os nutrientes, a água e o trabalho também se exprimem por unidade de área, a produtividade mede a eficiência de tais entradas (Loomis e Connor, 1992). No entanto, a eficiência energética de muitos sistemas de produção é extremamente baixa, pois só uma infima proporção da totalidade de entradas de energia é consumida pelo homem, como se pode ver no quadro 2.

  • Quadro 2- Proporção das entradas de energéticas que é consumida pelo
    homem na forma de alimentos
    (Briggs e Courtney, 1989)

Sistema de produção

Percentagem das entradas energéticas consumida pelo homem

Cereais

0,200

Beterraba sacarina

0,250

Batata

0,250

Carne intensiva

0,005 - 0,025

Leite intensiva

0,030 - 0,080

Carne extensiva

0,002 - 0,004

Mixed farming

0,030 - 0,150

No quadro 3 figuram as entradas e saidas de energia de diferentes sistemas de cultura de arroz. Pode observar-se que a produtividade aumenta com o nível de entradas no sistema, ou seja com a intensificação cultural, no entanto a eficiência energética do sistema diminui.

 

 

Energia (x 103 kcal.ha-1)

 

Borneu

Japão

Califórnia

Entradas

     

Directas

     

Trabalho

0.626

0.804

0.008

Enxada

0.016

-

-

Maquinaria

-

0.189

0.360

Gasóleo

-

-

3.264

Gasolina

-

0.910

0.657

Gás

-

-

0.354

Indirectas

     

N

-

2.088

4.116

P

-

0.225

0.201

Sementes

0.392

0.813

1.140

Rega

-

0.910

1.299

Insecticidas

-

0.348

0.191

Herbicidas

-

0.699

1.119

Secagem

-

-

1.217

Electricidade

-

0.007

0.380

Transporte

-

0.051

0.121

Saidas

     

Produção de arroz

7.318

17.598

22.370

Produção de proteina (kg)

141

364

462

Eficiência energética

7.08

2.45

1.55

Bibliografia

Tivy, Joy (1990). Agricultural ecology. Longman Scientific & Technical, Essex, England

Loomis, R. S. and D. J. Conner. (1992). Crop ecology. Productivity and management in agricultural systems. Cambridge University Press, Cambridge, England.

Briggs, D. and F. Courtney (1989). Agriculture and environment. The physical geography of temperate agricultural systems. Longman Scientific & Technical, Essex, England.


Copyright Domingos Almeida 1999.
Última revisão: 25 Maio 1999