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Conceito de agricultura

Domingos P. Ferreira de Almeida

 

A agricultura, como actividade do homem inserido na sociedade, só de uma forma imperfeita se pode enquadrar em definições formais. Uma definição sucinta, tal como "a agricultura é a arte de cultivar os campos", é de tal forma vaga e pouco informativa que está longe de poder transmitir a ideia da complexidade e dos objectivos da actividade. Além disso, na agricultura empresarial moderna a arte, cada vez mais, cede o seu lugar à ciência. Definições mais requintadas e elaboradas afirmam que "a agricultura consiste no esforço para situar a planta cultivada nas condições óptimas de meio (clima, solo) para lhe tirar o máximo rendimento em quantidade e em qualidade" (Diehl, 1984). Esta definição, sendo ilucidativa do ponto de vista técnico, peca por negligenciar o conceito de agricultura como actividade económica e social. Na realidade o objectivo económico da agricultura, num sistema de produção capitalista ou empresarial (ver Barros, 1975) não é a maximização do rendimento, mas sim do lucro, o que, como se sabe da teoria microeconómica da produção, não coincide com o máximo rendimento. Por outro lado, numa agricultura de subsistência o objectivo é o de assegurar a alimentação do agragado familiar, o que se faz sem a utilização de factores de produção adquiridos no mercado e sem a preocupação da adquação das plantas ao meio.

Foi também sugerido que "a agricultura é a arte de obter do solo, mantendo sempre a sua fertilidade, o máximo lucro" (Diehl, 1984). Embora introduzindo o conceito da manutenção da fertilidade do solo, que serve o objectivo de obter produções regulares ao longo dos anos (sustentabilidade dos sistemas de agricultura), esta definição apenas se adequa aos sistemas capitalistas de produção. Além disso não refere quais os intermediários entre o solo e o lucro, pelo que pode ser utilizada sem grande esforço para as actividades extractivas.

Uma definição sintética e expressiva foi proposta por René Dumont (Barros, 1975). Para este autor a agricultura é "a artificialização pelo homem do meio natural, com o fim de o tormar mais apto ao desenvolvimento de espécies vegetais e animais, elas próprias melhoradas". O conceito de artificialização do meio engloba as técnicas culturais, independentemente do seu grau de aplicação.

A enorme dificuldade em definir agricultura, prende-se com complexidade de que se revestem as actividades humanas, que decorrem em determinado momento histórico, ambiente natural e contexto social. Na sua mais larga acepção a agricultura deve ser encarada como "fenómeno social total".

Esta actividade tem de se adaptar às condições ecológicas e sociais, que variam da lugar para lugar, o que levou Barros (1975) a afirmar que a agricultura é, por excelência, o domínio da diversidade. Diversidade no enquadramento paisagistico, nos solos, no clima, na adaptabilidade das plantas cultivadas e dos animais domésticos e na presença de vegetação espontânea e animais selvagens. Diversidade nas atitudes e comportamentos dos homens, na riqueza material e estatuto social dos agricultores, no papel da agricultura na economia global. Diversidade na tecnologia disponivel, no equipamento utilizado, no grau de utilização do potencial produtivo dos terrenos, nas estruturas fundiárias, na organização empresarial...

O conceito que uma sociedade tem da agricultura modifica-se quando se alteram as condições ecológicas e sociais referidas. Essa mudança está bem patente na evolução que o conceito "político" de agricultura tem sofrido nos últimos tempos. Durante milhares de anos a sociedade encarou a agricultura como uma actividade de subsistência, cujo objectivo primário era a produção de alimentos. Depois foi-se introduzindo na consciência colectiva a ideia da agricultura como actividade económica, a quem se exigia a produção de lucro, o que teve como consequência uma acentuada dependência das energias fosseis, casos de poluição dos solos, das águas e dos alimentos e a problemática dos excedentes. Actualmente começa a ver-se a agricultura como uma actividade ecológica, orientada para a produção de bem-estar, no sentido lato. Segundo esta acepção, consagrada na recente reforma da Politica Agrícola Comum, o agricultor vê reconhecida a sua multifuncionalidade. Não deixa de ser encarado como um produtor de alimentos e matérias-primas, mas reconhece-se o seu papel de produtor de bens não transacionáveis como a defesa do ambiente e dos recursos naturais, a gestão do espaço rural e a preservação da paisagem.

 

Referências bibliográficas

Barros, Henrique de. (1975). Os grandes sitemas de organização da economia agrícola. 1ª edição. Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa.

Diehl, Robert.(1984). Agricultura geral. Clássica Editora, Lisboa


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