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ÍNDICES BIOCLIMÁTICOS

Domingos P. Ferreira de Almeida

 

1. Introdução

Há cerca de 10-12 mil anos, na região conhecida como Crescente Fértil, a agricultura substituiu gradualmente a economia recolectora do Paleolítico Superior. A sedentarização das populações e a sua dependência da produtividade do ecossistema circundante, forçou o homem a tomar consciência dos padrões climáticos e da sua influência na produção de alimentos e a utilizar esses conhecimentos para a condução das culturas. Tratava-se de informação qualitativa, resultado das observações dos sucessos e fracassos, dos "bons" e "maus" anos agrícolas, acumulados ao longo dos séculos e transmitidos de uma geração para a seguinte na forma de provérbios.

Até muito recentemente o conhecimento das relações entre a variabilidade do estado de tempo e a produtividade das culturas esteve baseado nessas observações qualitativas. Os primeiros dados quantitativos datam do século XVIII quando Réaumur descobriu a realação entre o desenvolvimento das plantas e a temperatura do ar.

A vulgarização dos fertilizantes químicos, dos pesticidas, de novas cultivares obtidas pelo Melhoramento, os progressos na mecanização e o melhor conhecimento dos processos fisiológicos permitiu grandes aumentos das produtividades e a diminuição da variabilidade interanual dos rendimentos. No entanto, a influência do clima no rendimento das culturas continua a fazer-se sentir e com uma intensidade cada vez maior, à medida que outras fontes de variabilidade vão sendo removidas.*

O objectivo deste trabalho é apresentar algumas formas de quantificar as relações entre o desenvolvimento das culturas e os elementos do clima, com base nas quais se establecem zonagens para diferentes culturas, se definem as estações de crescimento e se desenvolvem modelos de previsão das datas de colheita e dos rendimentos. 

 

2. Índices relacionados com a temperatura

A temperatura é o elemento do clima que mais condiciona o desenvolvimento das plantas. Do ponto de vista agronómico, o regime de temperatura é normalmente caracterizado por:

- duração da estação de crescimento, que é o período do ano en que as temperaturas se mantém superiores ao zero de vegetação;

- tempo térmico, medido em dias-grau de crescimento, que é uma unidade que combina tempo e temperatura, utilizada para medir o desenvolvimento de uma cultura entre dois estados fenológicos. Um dia-grau de crescimento representa 24 horas com uma temperatura que está 1ºC acima do limiar mínimo de desenvolvimento.

 

2.1. O método das temperaturas acumuladas

O tempo térmico (sin. temperaturas acumuladas, integral térmico, somatório térmico) é normalmente calculado como o somatório da diferença entre a temperatura média diária e o zero de crescimento, para cada dia depois de determinada data (data de sementeira, por exemplo):

D=S (tm-t0)

 

À diferença tm-t0 chama-se temperatura efectiva, pois admite-se ser a temperatura que contribui para o crescimento e desenvolvimento.

A curva de desenvolvimento de uma planta (recorde-se que o conceito de desenvolvimento está associado ao aumento de complexidade, normalmente descrito por uma sucessão de estados fenológicos) em função da temperartura do ar apresenta uma forma de sino.

A expressão apresentada para o cálculo do tempo térmico é cumulativa para qualquer temperatura acima do zero de vegetação. Na realidade, quando a temperatura a que as plantas estão sujeitas ultrapassa o valor óptimo (ou intervalo de valores) a taxa de desenvolvimento decresce, o que não é tido em conta pelo modelo. Para ultrapassar esta limitação e construir modelos mais fieis à realidade, desenvolveram-se métodos que diferem do apresentado pela forma como tratam os valores de temperatura acima do óptimo.

Um outro aspecto a ter em atenção na utilização destes métodos é que a "constante térmica", isto é, o número de dias-grau de crescimento para se passar de um estado fenológico a outro, não é realmente constante. Para o trigo, por exemplo, são necessários de 90 a 150 ºC da sementeira à emergência o que é um intervalo de valores considerável. Na realidade a temperatura acumulada para se passar de um estado de desenvolvimento a outro depende da cultivar, do nível de fertilidade do solo, da densidade de sementeira, do tipo de solo e do seu teor de humidade. Como exemplo genérico atente-se no facto de a adubação azotada favorecer o crescimento vegetativo em deterimento da maturação, enquanto ao fósforo é atribuido o efeito contrário. O tipo de solo e o seu teor de humidade são determinantes da temperatura do solo, que afecta de forma notória a emergência e o crescimento inicial das plantas.

Apesar das críticas apontadas o método das temperaturas acumuladas funciona em diversas situações, para a previsão da data de colheita de algumas culturas, para a zonagem e para a previsão do estado de desenvolvimento de muitas pragas.

 

3. Outros índices unifactoriais

Embora a temperatura seja o mais o elemento do clima mais limitativo da distribuição das culturas existem índices para descrever a influência de outros elementos do clima tais como:

pluviosidade do mês que antecede a colheita

evapotranspiração potêncial e real (EVTP e EVTR)

 

4. Índices bioclimáticos bi- e trifactoriais

Por vezes tem interesse considerar o efeito simultaneo de dois ou meis elementos do clima sobre o comportamento das culturas. Na realidade os elementos do clima não actuam isolados e a resposta das plantas a um deles depende dos níveis de outros.

Iht=(Tm . S Ie) / (ETR . 10)

 

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* Esta afirmação admite como excepção o caso das culturas protegidas e da utilização dos sistemas de forçagem utilizados em Horticultura para modificar o clima.


Copyright Domingos Almeida 1999.
Última revisão: 29 Maio 1999