Ensino da Horticultura e Internet: início de um flirt
(Comunicação apresentada no III Encontro de Docentes de Horticultura do Ensino Superior, Ponte de Lima, 13 e 14 de Setembro)

Domingos P. F. Almeida
Secção Autónoma de Ciências Agrárias
Faculdade de Ciências, Universidade do Porto

 

O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há nem pode haver noutras línguas, enquanto a civilização as não apurar. To flirt [...] não obriga a nada; não tem consequências; começa-se, acaba-se, interrompe-se, adia-se, continua-se ou descontinua-se à vontade e sem comprometimento.
Eu flartava, nós flartávamos, elas flartavam...
E não há mais doce, nem mais suave entretenimento de espírito, do que o flartar [...]

Almeida Garrett, Viagens na minha terra.

 

A Internet está a revolucionar a forma de comunicar e disseminar informação, afectando naturalmente a forma como os profissionais de Horticultura interagem, adquirem e actualizam conhecimentos, transaccionam bens e serviços. O estudante de Horticultura deve estar familiarizado com a pesquisa de informação na Internet e consciente das suas potencialidades e limitações. Por outro lado, a Internet é um instrumento que permite ao docente de Horticultura gerir as suas disciplinas, fornecer uma programação das actividades em tempo real, disponibilizar sumários e apontamentos, suscitar discussões e responder a questões dos alunos, tirar melhor partido da avaliação.

Neste trabalho, apresento algumas das minhas tentativas de incorporar o uso da Internet no ensino das disciplinas que tenho leccionado. Referirei em primeiro lugar o desenvolvimento e utilização de web sites das disciplinas. Seguidamente, apresento uma experiência de familiarização dos alunos com a procura de informação na Internet e a avaliação que os alunos fizeram da utilidade do web site. Finalmente darei exemplos da utilidade das tecnologias da informação para expandir as funções da avaliação. Uma versão deste trabalho contendo ligações para os exemplos referidos encontra-se disponível em http://dalmeida.com/ensino/ensino.htm.

 

 

O web site da disciplina

 

O web site da disciplina é um instrumento que pode ser utilizado para transferir informação e facilitar a comunicação entre o docente e os alunos. O grau de sofisticação pode variar entre a simples página com o programa da disciplina até aos web sites de cursos vocacionados para o ensino não-presencial, elaborados por equipas profissionais, que se destacam pela riqueza de conteúdo, qualidade gráfica excepcional e tiram partido de todas as tecnologias disponíveis para a transferência de conhecimentos.

Os site de disciplina que eu utilizo (ver por exemplo http://dalmeida.com/hortnet) são utilizados na comunicação com os alunos durante o decorrer do semestre lectivo, servindo para divulgar os sumários das aulas dadas, planear as aulas futuras, disponibilizar apontamentos e servir de repositório de dúvidas num grupo de discussão. O grupo de discussão permite que a comunicação seja bidireccional, já que tanto os alunos como o docente podem colocar e responder a questões e submeter informações diversas, como por exemplo endereços de sites sobre tópicos abordados na disciplina.

 

 

Sensibilização dos alunos para as potencialidades e limitações da Internet

 

No ano lectivo de 1999/2000, no âmbito da disciplina de Horticultura I da licenciatura em Eng. Agrícola da UTAD, procedi à apresentação do web site da disciplina aos alunos durante uma aula prática, que serviu também para familiarizar todos os alunos com a procura de informação na Internet. Os alunos tiveram oportunidade de navegar pelo site e foram depois solicitados a utilizar recursos disponíveis online para responder às seguintes questões ou problemas:

 

1.      Indique o contacto de uma empresa de montagem de estufas a trabalhar em Portugal.

2.      Indique um regulador de crescimento que possa ser usado para promover a iniciação floral em azáleas.

3.      Qual a taxa de respiração de morangos armazenados a 0 ºC?

4.      Escolha duas plantas medicinais que possuam propriedades expectorantes.

5.      Qual o nome científico da alcachofra?

6.      Qual a perda de peso seco que ocorre quando 100 toneladas de morangos são armazenadas a 10 ºC durante 72 horas, assumindo que não há perdas por actividade microbiana?

 Ver protocolo do trabalho prático

 

O exercício foi concebido para consciencializar os alunos para as potencialidades da Internet, alertando também para as suas limitações e para a necessidade de nos precavermos contra a versão informática do “conforto das fotocópias” – o facto de a informação necessária estar algures na pilha de apontamentos que vamos acumulando, não significa que a saibamos encontrar e, muito menos, utilizar, quando formos chamados a resolver um problema.

As questões 1 a 5 podem ser respondidas com dados ou peças de informação elementar. Os dados não necessitam de ser processados para gerar a resposta a este tipo de questões. A resposta será imediata e estará algures na Internet. Se não estiver hoje poderá estar amanhã ou no dia seguinte.

Há, no entanto, outros tipos de questões para as quais dificilmente se encontrará uma resposta imediata pesquisando a Internet. São questões que apelam a níveis cognitivos superiores à memória, para os quais a disponibilidade de dados não basta, sendo necessário processar os dados recorrendo a um algoritmo apropriado para extrair deles a resposta. A questão 6 é um exemplo de um problema deste tipo.

A solução para este tipo de problema dificilmente se encontra na Internet de forma directa. No entanto, a informação elementar (os dados) necessária à abordagem do problema está facilmente disponível. Um aluno com boa formação de base facilmente encontra a informação necessária, mas terá que se socorrer dos seus conhecimentos de base para manipular a informação e extrair dela a solução para o problema. Embora cada uma das peças de informação necessárias possa ser encontrada algures na Internet, os motores de pesquisa serão inúteis se o aluno não souber exactamente de que informação necessita.

Depois do exercício de pesquisa das respostas às questões, o grupo procedeu à discussão da experiência com vista ao levantamento das potencialidades e limitações da Internet como fonte de informação para estudantes e profissionais de Horticultura. 

 

O grupo realçou como principais potencialidades da Internet as seguintes:

1.      facilidade e rapidez de acesso à informação, 

2.      utilização como meio de comunicação, 

3.      comércio electrónico, 

4.      facilidade de armazenar, catalogar e actualizar a informação,

5.      custo reduzido. 

 

Como principais limitações foram referidas:

1.      necessidade de usar palavras-chave adequadas, 

2.      necessidade de conhecimento da língua inglesa dada a falta de conteúdos de qualidade em português 

3.      dificuldade em avaliar a qualidade da informação, 

4.      falta de actualização dos conteúdos de muitos sites, 

5.      falta de treino dos potenciais utilizadores para extrair o máximo de proveito da Internet,

6.      fraca disponibilidade de hardware (computadores, largura de banda).

 

 

Opinião dos alunos sobre o uso da Internet numa disciplina de Horticultura

 

No final do semestre os alunos foram inquiridos, através de um questionário online sobre o uso da Internet no ensino da disciplina.

A maior parte dos alunos indicou que só visitara o site 1 a 3 vezes durante o semestre, incluindo a visita efectuada durante a aula prática sobre Internet na Horticultura. Quando interrogados sobre as razões pelas quais não tinham visitado o site mais assiduamente referiram “falta de tempo” como razão predominante.

O grupo de discussão também foi pouco visitado e teve poucas submissões (1 a 3 vezes). Os alunos justificaram a pouca participação no grupo de discussão com “falta de tempo”. Falta de computadores disponíveis, e falta de interesse do grupo de discussão não foram argumentos utilizados para justificara reduzida participação.

Os alunos foram da opinião que a Internet é um bom meio para o docente comunicar com os alunos, mas sublinharam que o contacto pessoal com o docente é insubstituível. A Internet deve, pois, ser considerada uma forma complementar de comunicação.

Os alunos concordaram que deveriam utilizar os sites de apoio às aulas. No entanto, quando confrontados com a baixa utilização do site, justificaram a fraca utilização com o facto de “terem muito que fazer”, “estarem sempre muito ocupados”, “não terem tempo” ou… “não estarem para isso”.

Em geral, os alunos concordaram que a Internet é um bom meio para disponibilizar informação sobre a disciplina e que os docentes deveriam desenvolver sites de apoio às aulas.

 

Novos meios, novas oportunidade: o exemplo da avaliação

 

A introdução de novas tecnologias trás consigo novas possibilidades. A Internet possibilitou-me também flartar com outras dimensões da avaliação para além da função de classificar os alunos, atribuir um valor ao seu desempenho nas provas exigidas. Para além de classificar, a avaliação pode desempenhar outras funções importantes no ensino-aprendizagem, como sejam:

 

  1. Estimular a aprendizagem,

  2. Aferir os métodos e técnicas de transmissão dos conteúdos.

 

Estas funções podem ser atingidas através de diversos meios, incluindo os testes de diagnóstico e os testes formativos. A elaboração destes testes online facilita a correcção e tratamento personalizado das respostas possibilitando tratar os dados por forma a:

 

  1. Fazer recomendações personalizadas sobre os pontos fortes e fracos de cada aluno,

  2. Avaliar a eficiência do ensino dos diversos pontos programáticos.

 

A figura 1 representa o teste de diagnóstico da disciplina de Fisiologia e Tecnologia Pós-colheita que lecionei no curso de Mestrado em Fitotecnia na UTAD no ano lectivo de 1999/2000. O teste teve como objectivo permitir ao docente uma avaliação da sensibilidade dos alunos de mestrado, sem formação de base consistente em Pós-colheita, para o tema e, simultaneamente, alertar os alunos para o âmbito e o tratamento que o tema receberia na disciplina.

 


Figura 1- Teste de diagnóstico da disciplina de Fisiologia e Tecnologia Pós-colheita do mestrado em Fitotecnia (UTAD), ano lectivo de 1999/2000. O teste está disponível online em http://dalmeida.com/poscolheita

 

Na figura 2 está parte de um teste formativo da disciplina de Horticultura II (licenciatura, optativa) que leccionei na UTAD no ano lectivo de 2000/01. Neste caso o teste teve como objectivo familiarizar os alunos com o tipo de questões do exame final e contribuir para aferir o ensino-aprendizagem da disciplina. Os alunos responderam ao teste formativo durante uma parte de uma aula prática, conscientes de que o teste não afectava a classificação final. Em ambas as situações, as tecnologias da informação possibilitaram uma correcção semi-automática dos testes e facilitaram a análise estatística dos resultados. O mesmo tipo de formulários pode ser utilizado em inquéritos de opinião aos alunos. 

 


Figura 2- Teste formativo da disciplina de Horticultura II, Eng. Agrícola, UTAD, ministrado no ano lectivo de 2000/01. O teste está disponível online em http://dalmeida.com/hortnet

 

Um apelo à generalização do flirt  entre o Ensino da Horticultura e a Internet

 

Actualmente, e mesmo nos casos mais sofisticados, a relação dos docentes de Horticultura com as “novas” tecnologias da informação e da comunicação não passa de um flirt descomprometido... mas, será desprovido de consequências? Enquanto flartamos abrem-se novas oportunidades tecnológicas, os hábitos de estudo e de pesquisa evoluem, o plágio torna-se mais fácil para os alunos (e docentes ?) e mais difícil de reconhecer pelos docentes, a falta de acesso a uma boa biblioteca vai deixando de ser limitativa da aprendizagem. Inevitavelmente, a forma como ensinamos Horticultura alterar-se-á.

O que acontecerá quando docentes educados no estudo sequencial dos livros tiverem de ensinar alunos cujas sinapses estão habituadas a navegar no hipertexto? Como transformar programas sequenciais em programas que cada aluno percorre um caminho (hiperlinks) distinto? Será que o território se altera se mudarmos a forma de o percorrer? 

O desenvolvimento e utilização de web sites nas disciplinas está hoje ao alcance de qualquer docente interessado e é uma forma doce e suave do docente começar a flartar com o uso da Internet no ensino. O flirt não obriga a nada; pode interromper-se, adiar-se, continuar-se ou descontinuar-se à vontade e sem comprometimento. Mas desconfio que a generalização do flirt entre ensino e Internet terá consequências... benéficas para o ensino-aprendizagem da Horticultura.

 


Copyright Domingos Almeida, 2001.